Uma pesquisa desenvolvida na Universidade de Brasília (UnB) tem apontado caminhos promissores no combate ao câncer de ovário, um dos tumores mais silenciosos e de difícil tratamento. O estudo investiga o papel do ômega 3 do tipo DHA (ácido docosahexaenoico) como um possível aliado — não substituto — das terapias convencionais, como quimioterapia, radioterapia e imunoterapia.
À frente do trabalho está o professor doutor Gabriel Pasquarelli, 32 anos, formado em Imunologia pela Universidade de Brasília, onde também concluiu mestrado em Biologia Molecular e doutorado em Patologia Molecular. Parte da pesquisa foi desenvolvida na Universidade Harvard, nos Estados Unidos, experiência que, segundo ele, foi fundamental para aprofundar o entendimento sobre os mecanismos do câncer. “Comecei essa linha de pesquisa ainda no mestrado, estudando o efeito do ômega 3 DHA em células de câncer de ovário. No doutorado, aprofundei esses estudos e consegui expandir o conhecimento, inclusive com a vivência internacional”, explica Pasquarelli.
Além da contribuição para a prevenção de células cancerígenas, o Ômega 3 é essencial para a saúde cerebral, visual e cardiovascular, sendo um componente estrutural vital do cérebro e da retina
De acordo com os pesquisadores, o DHA demonstrou capacidade de induzir a morte de células tumorais por meio de um processo chamado piroptose — um tipo específico de morte celular programada. Além disso, o composto provoca disfunções nas mitocôndrias, estruturas responsáveis pela produção de energia das células. “Quando o DHA entra em contato com as células de câncer de ovário, ele compromete a ‘casa de energia’ dessas células e ativa mecanismos que levam à morte celular. Isso reduz a viabilidade do tumor”, detalha o professor.

Um dos pontos mais relevantes do estudo é a seletividade dessa ação. Testes laboratoriais mostraram que células saudáveis não sofrem efeitos tóxicos com o composto. “Observamos que essa ação é específica para as células cancerígenas. As células normais permanecem viáveis, o que é um dado muito importante para pensar em segurança terapêutica”, destaca.
Suplemento pode ajudar, mas não substitui tratamento
Apesar dos resultados promissores, os especialistas reforçam que o DHA deve ser encarado como um tratamento adjuvante — ou seja, complementar às terapias já estabelecidas. “A ideia não é substituir nenhum tratamento convencional, mas potencializar seus efeitos. O DHA pode atuar como mais um aliado no combate ao tumor”, afirma Pasquarelli.
Ele também alerta que nem todo ômega 3 disponível no mercado possui a mesma eficácia. “Existem diferentes tipos, como o EPA e o DHA. No nosso estudo, o DHA apresentou um efeito antitumoral mais pronunciado. Por isso, é importante atenção à composição dos suplementos.”
A recomendação é que o uso seja orientado por profissionais de saúde, como nutricionistas, já que a dosagem varia de acordo com características individuais, como peso e condição clínica.
Benefícios além do câncer
Para a população em geral, o ômega 3 também apresenta benefícios conhecidos, como ação anti-inflamatória, melhora do sistema imunológico e proteção cardiovascular. “O DHA contribui para o bom funcionamento do cérebro, ajuda a reduzir riscos de doenças cardiovasculares e tem efeito anticoagulante. São benefícios amplamente descritos na literatura científica”, explica o pesquisador.
Pesquisa de longo prazo
O estudo teve início em 2017 e já avançou da fase inicial que contempla os experimentos com células para a partir de agora, testes em modelos animais com camundongos e só depois para testes com humanos, a partir de uma parceria com o Hospital Universitário de Brasília. Segundo Pasquarelli, essa etapa pode levar de quatro a cinco anos para ser concluída.
Já os estudos com humanos devem ocorrer em formato de acompanhamento contínuo. “É um processo mais longo, que envolve monitoramento de pacientes ao longo do tempo. Não é algo com prazo de término fechado”, diz.

A pesquisa conta com a colaboração de diversos cientistas e instituições, sendo integralmente financiada por recursos públicos. A professora doutora Gracie Kelly, imunologista e também participante do estudo, destaca a importância desse apoio. “Esse é um trabalho robusto, desenvolvido ao longo de anos, que descreve um mecanismo ainda inédito da ação do DHA em células de câncer de ovário. Ele pode abrir caminhos para aplicações terapêuticas futuras”, afirma.
Segundo ela, o próximo passo é ampliar os estudos em modelos vivos e iniciar a transição para pesquisas clínicas. “Estamos buscando parcerias, inclusive com a área de nutrição oncológica, para avaliar o impacto da suplementação em pacientes.”
Os pesquisadores reforçam que avanços como esse dependem diretamente de investimento contínuo em ciência. “É fundamental que a sociedade compreenda o papel das universidades públicas na produção de conhecimento. Sem financiamento, não há como dar continuidade a pesquisas que podem salvar vidas”, destaca Gracie Kelly.
Além do câncer de ovário, o grupo também investiga o efeito do ômega 3 em outros tipos de tumores, como câncer de mama, melanoma e câncer gástrico — alguns com resultados promissores ainda em fase de publicação. “Nosso objetivo é contribuir para o desenvolvimento de estratégias mais eficazes e acessíveis no tratamento do câncer”, conclui Pasquarelli.

