O aumento de 56,08% no valor das corridas por aplicativo em 2025, registrado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), tem pesado no bolso dos passageiros. Do lado de quem trabalha no serviço, motoristas afirmam que a alta não se converte, necessariamente, em melhoria da renda.
O motorista de aplicativo Carlos Henrique da Silva, de 42 anos, que faz corridas tanto no Distrito Federal quanto em cidades do Entorno, relata que a diferença entre o valor pago pelo passageiro e o que chega ao condutor é frequente. “Tem vez que recebo uma notificação mostrando quanto eu vou ganhar naquela corrida. Depois, quando o dinheiro cai no Pix, você percebe que o passageiro pagou quase o dobro do valor que ficou para o motorista. A plataforma não faz absolutamente nada por nós. O gasto é nosso, o risco é nosso, a manutenção do carro é toda por nossa conta”, afirma.
Segundo ele, a percepção de quem está fora da rotina não reflete a realidade vivida nas ruas. “Quem está de fora pensa que, porque a corrida ficou mais cara, o motorista passou a ganhar bem mais. Mas não é assim que funciona. A gente roda no DF, roda no Entorno, enfrenta trânsito, passa horas dentro do carro, e no fim do dia o dinheiro que sobra é bem menor do que o passageiro imagina. O preço sobe no aplicativo, o cliente reclama, mas a nossa parte continua apertada. Quando você desconta combustível, manutenção e o tempo que fica parado esperando corrida, dá para ver que esse aumento não chega inteiro para quem dirige”, relata.
Carlos também destaca outras dificuldades enfrentadas no dia a dia. “Fora isso, a gente ainda passa por desaforos todos os dias. Eu estou nisso porque não encontro outra oportunidade. Se pudesse, sairia. Tem gente que ainda aluga o carro para trabalhar e acaba vivendo só para pagar esse aluguel”, diz.
Dados do levantamento do aplicativo GigU mostram que a renda líquida dos motoristas varia conforme a cidade e a carga horária. Em Brasília, um profissional que trabalha cerca de 50 horas por semana tem faturamento anual de R$ 77.142,84. O lucro no mesmo período é de R$ 29.004,72. Apenas com gasolina, o gasto chega a R$ 25.311,60. O lucro mensal fica em torno de R$ 2.417,72. Na capital federal, 2.120 motoristas com carro próprio declararam informações ao estudo.
No cenário nacional, a diferença entre o valor pago pelo usuário e o que fica com o motorista intensificou o debate sobre regras para o setor. O Projeto de Lei Complementar 152/2025, em discussão no Congresso Nacional, propõe limitar a comissão das plataformas a 30% e criar critérios para dar mais previsibilidade de renda aos condutores.
As empresas argumentam que a limitação pode afetar a precificação dinâmica e a oferta do serviço. O debate segue em andamento e envolve o desafio de equilibrar o custo das corridas, a remuneração dos motoristas e a sustentabilidade do modelo adotado pelas plataformas.
