O compositor e cantor Chico Buarque é autor de uma música interessante, mas pouco divulgada. Trata-se de “Ciranda da Bailarina” (confira no link: https://tinyurl.com/4n2umb2d).
Chico Buarque, com aquela sua malemolência linguística habitual, sugere que todos podem tudo — ou quase tudo. Menos a bailarina. É uma ode à bailarina e aos seus sacrifícios em nome da arte.
Mais para o final da música — um poema-celebração —, Chico Buarque diz: “Medo de subir, gente/ Medo de cair, gente/ Medo de vertigem/ Quem não tem/ Confessando bem/ Todo mundo faz pecado/ Logo assim que a missa termina/ Todo mundo tem um primeiro namorado/ Só a bailarina que não tem”.
Adiante, num fecho surpreendente, reabrindo a música-poema — numa dialética enviesada —, Chico Buarque assinala: “Sala sem mobília/ Goteira na vasilha/ Problema na família/ Quem não tem/ Procurando bem/ Todo mundo tem”.
A bailarina busca tanto o belo quanto a perfeição. Mas o belo está mais na procura da perfeição — no salto, um voo, impossível — do que na perfeição em si (que, a rigor, não existe). É o desafio que importa. Todas as grandes bailarinas sabem disso. Da brasileira Ana Botafogo a Margot Fonteyn, Anna Pavlova, Marie Taglione, Alicia Alonso, Galina Ulanova, Svetlana Zakharova e Marianela Nuñez. Entre tantas outras.
Não há talentos iguais. Há talentos que se aproximam. Mas, quando estão no palco, o que se espera das bailarias — e dos bailarinos — é perfeição, aquilo que enche os olhos de alegria. Há quem acredite que as bailarinas “pulam”. Não, não pulam. Elas voam… como os pássaros.
Para uma carreira bem-sucedida, as bailarinas se privam de muitas coisas. Por isso Chico Buarque diz que todos podem tudo, ou quase tudo, mas as bailarinas nada podem.
Brasília precisa ter empatia pelo Entorno
Pois parece que o ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda, do PSD, é uma espécie de bailarina da política. Quer dizer, todos podem disputar, menos o Arruda — que, por sinal, foi um dos melhores gestores de Brasília — a urbe-símbolo, uma cidade, digamos assim, Estado.
Dado um mau passo, Arruda foi afastado do governo do Distrito Federal em 2010 — há 16 anos. Ele deixou a gestão quando, como nenhum outro, estava mudando a face do Distrito Federal. Inclusive assumindo responsabilidade pelo Entorno de Brasília — onde moram ao menos 100 mil eleitores do DF.
Brasília é uma espécie de Céu e Inferno para o Entorno do Distrito Federal, ou seja, para cidades como Luziânia, Águas Lindas e, entre outras, Valparaíso de Goiás.

Brasília “cria” os problemas, como a migração, por vezes excessiva, que muda a configuração das cidades do Entorno, levando-as um crescimento vertiginoso e desordenado, mas sem o apoio financeiro correspondente — para atender as demandas da população —, porém não ajuda a solucioná-los.
Os problemas do Entorno, que na verdade são de Brasília, ficam sob responsabilidade exclusiva das prefeituras e do governo do Estado. Escolas cheias, com demanda crescente ano a ano — e até semestre a semestre —, hospitais superlotados, com custo cada vez mais alto, são problemas a serem resolvidos pelo governo de Goiás e pelas prefeituras. Há a questão da segurança, que só melhorou devido à política eficiente e tenaz da gestão do governador Ronaldo Caiado.
As drogas estão em todos os lugares do país, é claro, e não apenas no Entorno. Por isso não se pode “culpar” Brasília pela presença de traficantes no Entorno. Mas é possível sugerir que o tráfico é puxado ou atraído, em certa medida, pela capital nacional. Trata-se de uma urbe imensa e com alta renda per capita.

Pois, quando governador, Arruda desenvolveu um olhar positivo-empático para o Entorno. Chegou a planejar a construção de edifícios nas principais cidades do Entorno com o objetivo de beneficiar moradores mais pobres. Pensou também em atrair grandes empresas — como indústrias — para a região. “Assentar” as pessoas no próprio Entorno — para evitar os deslocamentos cansativos para Brasília (que piora o trânsito e gera estresse) — era, e é, uma maneira de beneficiar tanto os moradores da região quanto os de Brasília.
Quando governador, Arruda soube perceber que, se Brasília é um problema (um “estorvo”, diria Chico Buarque) para o Entorno, este pode ser uma solução àquela. No fundo, Brasília e Entorno do DF são uma coisa só. É como se as cidades da região fossem grandes bairros autônomos da capital. Para melhorar Brasília é preciso melhorar o Entorno. Para melhorar o Entorno é preciso melhorar Brasília. Não se deve ver os dois como isolados e estanques.
Arruda tinha uma visão, por assim dizer, “integradora”. Mas caiu no momento em que seu governo — a gestão era moderna, inclusive na questão da regularização do transporte — estava engrenando. Talvez tenha mexido em vespeiro de poderosos, que, muitas vezes em nome da lei, contrariam o interesse realmente público.

Justiça não é tutora dos eleitores
Mas voltemos à bailarina e a determinados políticos. A menção à música de Chico Buarque tem a ver com o fato de que Arruda tem cultura e conhece tanto música quanto cinema (por exemplo, é admirador do cinema de Glauber Rocha). Mas não é aleatória.
O que se está sugerindo mesmo é que há um sistema que, em 16 anos, opera para “brecar” uma candidatura de Arruda a governador do Distrito Federal. Ele aparece bem nas pesquisas, porque o povo lembra-se da modernização que iniciou — e não teve continuidade (o governador Ibaneis “Master” Rocha, em sete anos e dois meses, atrasou Brasília, o DF, como um não-Mestre, 50 anos) —, mas se organizam para barrá-lo.
O sistema anti-Arruda, na realidade, contraria a vontade popular. Quer dizer, depois de 16 anos — não é possível, diria uma bailarina, que pecados políticos têm de ser eternos, sem redenção —, o povo parece que quer votar em Arruda, mas há sempre uma pedra no caminho.
É provável que, em 2026, Arruda possa finalmente disputar o governo do Distrito Federal — como querem os eleitores. É o desejo popular. Espera-se que a Justiça não durma e opere com(o) justiça, e não (como) “vingança” eterna.
O presidente Lula da Silva foi condenado e preso. Saiu e foi eleito para governar o país. José Sarney não está mais disputando mandato, mas, mesmo com várias acusações — contra ele e sua família —, nunca foi impedido de disputar nada.
O senador Renan Calheiros respondeu a processos e nunca deixa de se candidatar. Marconi Perillo respondeu a processos e chegou a ser preso, mas continua firme e informando que será candidato a governador de Goiás pela quinta vez.
O senador Flávio Bolsonaro, do PL, comprou casa milionária, teria usado uma loja de chocolate para supostamente lavar dinheiro e adotou a prática de rachadinha em seu gabinete, em conluio com o impagável Fabrício de Queiroz. Pois bem: é candidato à Presidência da República e já acossa Lula da Silva, do PT.
O senador Sergio Moro quase foi cassado, depois do escanteio da Operação Lava Jato, e agora planeja ser candidato a governador do Paraná. É o favorito.
Ibaneis Rocha pôs o Banco de Brasília (BRB) em conexão com Daniel Vorcaro, do Banco Master — até seu escritório de advocacia recebeu dinheiro de esquema associado ao banqueiro —, mas persiste se apresentando como pré-candidato a senador.
A pergunta é: por que, se todos podem ser candidatos — de Lula da Silva a Flávio Bolsonaro —, só Arruda “não” pode? Porém, para o bem da vontade popular dos eleitores de Brasília, Arruda certamente será liberado para disputar o governo do Distrito Federal. É o que querem as vozes das ruas. Não se deve cassar a vontade popular.
A Justiça precisa permitir que os eleitores façam suas escolhas. Não deve continuar escolhendo por eles. Os eleitores são maduros o suficiente para escolher quem quiser. Espera que os homens da Justiça sejam livres o suficiente para entenderem isto. (Por sinal, ao menos dois ministros do Supremo Tribunal Federal estão sendo acossados por denúncias.)

