O Partido Liberal (PL) anunciou que vai protocolar um pedido de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Câmara Legislativa do Distrito Federal para investigar operações envolvendo o Banco de Brasília (BRB) e o Banco Master. Ao mesmo tempo, partidos da oposição informaram que irão protocolar um pedido de impeachment contra o governador Ibaneis Rocha (MDB). As duas iniciativas foram anunciadas após questionamentos políticos sobre um contrato firmado entre um escritório de advocacia ligado ao governador e um fundo administrado pela Reag Investimentos.
A deputada federal Bia Kicis (PL) afirmou que a decisão do partido de pedir a CPI foi tomada após discussões internas e diante de dúvidas levantadas sobre a tentativa de compra do Banco Master pelo BRB.
O anúncio foi feito ao lado dos deputados distritais Tiago Manzoni (PL) e João Cardoso (PL), que se filiou ao partido nesta quarta-feira (11).
Segundo Bia Kicis, presidente do PL no DF, o partido aguardou o andamento dos fatos antes de tomar a decisão de defender a abertura da investigação. Ela afirmou que o deputado Tiago Manzoni (PL) já havia demonstrado inconformismo no plenário da Câmara Legislativa pela falta de explicações do governo sobre o projeto enviado anteriormente à Casa pedindo autorização para a compra do Banco Master pelo BRB.
Durante a coletiva, o deputado distrital João Cardoso (PL) afirmou que apresentou uma cronologia dos acontecimentos no plenário da Câmara Legislativa. Segundo ele, as discussões sobre a compra do banco começaram em março de 2025 e, posteriormente, surgiram informações que levantaram dúvidas sobre os dados apresentados inicialmente aos parlamentares.
Já o deputado Tiago Manzoni (PL) afirmou que ainda não é possível saber qual seria o tamanho do possível prejuízo envolvendo o BRB e demonstrou preocupação com eventual impacto nas contas públicas do Distrito Federal.
Segundo ele, um dos pontos do projeto aprovado autoriza a entrega de bens imóveis como garantia para empréstimos que podem chegar a R$ 6,6 bilhões, além da possibilidade de aportes do governo no banco.
De acordo com Bia Kicis, a decisão de apresentar o pedido de CPI foi tomada por unanimidade durante reunião do partido. Participaram do encontro dirigentes e parlamentares do PL, entre eles o deputado federal Alberto Fraga (PL) e a presidente do PL Mulher nacional, Michelle Bolsonaro (PL).
A deputada também afirmou que a intenção do partido é que a investigação ocorra de forma “isenta e firme”, com o objetivo de esclarecer os fatos.
Pedido de impeachment
Paralelamente, os partidos PSOL e Rede informaram que vão protocolar um pedido de impeachment contra o governador Ibaneis Rocha (MDB) na Câmara Legislativa do Distrito Federal.
Segundo os partidos, o pedido é baseado em três possíveis crimes: crime contra a probidade na administração, crime contra as leis orçamentárias e crime contra a guarda e o legal emprego de dinheiro público.
Participam do protocolo do pedido os deputados distritais Fábio Felix (PSOL) e Max Maciel (PSOL), além da presidente do partido, Giulia Tadini (PSOL), e da porta-voz da Rede Sustentabilidade, Bruna Paola (Rede).
Contrato citado em questionamentos
Um contrato firmado em 2024 entre o escritório Ibaneis Advocacia e Consultoria e um fundo administrado pela Reag Investimentos passou a ser citado em questionamentos políticos e também em uma representação apresentada ao Supremo Tribunal Federal (STF).
O acordo foi assinado em 29 de maio de 2024 entre o escritório de advocacia ligado ao governador, outra banca jurídica e o fundo Reag Legal Claims — atualmente chamado de Pedra Azul FIDC.
Pelo documento, os escritórios cederam ao fundo R$ 38,12 milhões em honorários advocatícios que ainda não haviam sido recebidos em uma ação movida pelo Sindicato dos Servidores do Legislativo Federal (Sindilegis).
Esse tipo de operação funciona como uma antecipação de pagamento, em que os escritórios transferem ao fundo o direito de receber os honorários e recebem um valor antecipado.
Nos meses seguintes à assinatura do acordo, o Banco de Brasília realizou um aporte de R$ 16,7 bilhões no Banco Master e iniciou uma tentativa de compra da instituição. A operação acabou sendo barrada pelo Banco Central.
Na representação enviada ao STF, a oposição cita a participação do executivo Marcos Ferreira Costa, ligado à Reag Investimentos. Registros da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) indicam que ele aparece como diretor do fundo Pedra Azul FIDC, responsável pela compra dos créditos do escritório de advocacia.
O mesmo executivo também aparece posteriormente como representante da Reag em uma assembleia de acionistas do BRB realizada em março de 2025, que aprovou um aumento de capital do banco. Naquele momento, a gestora já possuía mais de 10% das ações do BRB.
A Reag Investimentos foi fundada em 2013 e administra recursos de pessoas físicas, empresas, fundos de pensão e investidores institucionais.
Em janeiro deste ano, o Banco Central determinou a liquidação extrajudicial da CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, novo nome da Reag Trust DTVM, responsável pela gestão de fundos do grupo, após desdobramentos da Operação Compliance Zero, que investiga possíveis irregularidades no sistema financeiro envolvendo o Banco Master.
A gestora também é citada em outra investigação federal, chamada Operação Carbono Oculto, que apura o uso de fundos de investimento para lavagem de dinheiro.
Críticas da oposição
Em meio à repercussão do caso, o ex-interventor da segurança pública do Distrito Federal, Ricardo Cappelli, publicou um vídeo nas redes sociais criticando a relação mencionada no contrato e as operações envolvendo o BRB. “Segundo a reportagem, o escritório de Ibaneis Rocha tem um contrato de 38 milhões com o Fundo Reag”, afirmou.
Em outro trecho do vídeo, Cappelli também mencionou a relação entre o fundo e o Banco Master. “O Fundo Reag é sócio do Banco Master. O BRB tentou comprar o Master e passou bilhões de reais para o banco”, disse.
Ele também declarou que pretende apresentar uma nova medida política na Câmara Legislativa. “Nós vamos entrar hoje com um novo pedido de impeachment na Câmara Distrital”, afirmou.
Nota da defesa
A defesa do governador Ibaneis Rocha informou que ele está afastado do escritório de advocacia desde 2018 e que, por isso, não possui informações sobre negociações realizadas quase seis anos após seu afastamento.
Segundo os advogados, o governador nunca participou de negociações com Marcos Ferreira Costa ou com outros representantes da empresa mencionada.
A defesa também afirmou que as informações sobre o grupo foram conhecidas pelo governador por meio de reportagens publicadas neste ano.
A nota é assinada pelos advogados Antônio Carlos de Almeida Castro (Kakay), Roberta Castro Queiroz, Marcelo Turbay Freiria, Liliane de Carvalho Gabriel, Álvaro Chaves e Ananda França de Almeida.

