Nascida e criada em Guarulhos, São Paulo, Daisy Reis, 41 anos, construiu boa parte da vida profissional dentro do serviço público. Aos 19 anos, ingressou em um concurso na área de comunicação e, aos 29, mudou-se para Brasília ao ser aprovada em um novo processo seletivo, dessa vez na Empresa Brasil de Comunicação (EBC), onde atuou como publicitária ligada à TV Brasil. Foi nesse período, em meio ao contato diário com pautas de diversidade, que ela iniciou uma transformação pessoal que, anos depois, daria origem à Preta Chique, marca de biojoias vencedora da categoria Microempreendedora Individual do Prêmio Sebrae Mulher de Negócios.
“Tenho trabalhado muito ao longo de nove anos e acredito muito nessa marca, que nasceu de uma necessidade minha, de uma mulher negra que não encontrava acessórios que afirmassem a minha identidade. Então passei a produzir e, trabalhando nesse sentido, imprimindo meu próprio axé nessas peças, construí a Preta Chique”, afirma Daisy.
Antes de chegar a Brasília, Daisy conta que, apesar de já revender bijuterias como forma de complementar a renda, ainda não se reconhecia plenamente como mulher negra. A mudança de cidade e o contato mais próximo com discussões raciais dentro do próprio ambiente de trabalho provocaram essa virada, entre 2015 e 2016. “Eu precisava olhar para minha ancestralidade, para as minhas raízes”, relembra.
O estalo definitivo veio em uma feira, ainda em 2016, quando usava um turbante e foi questionada por outras pessoas se vendia a peça. Ao perceber que não encontrava, ela mesma, acessórios que traduzissem essa identidade que buscava afirmar, decidiu passar a produzi-los. “Eu comecei a produzir para mim, e aquilo foi fazendo sentido”, conta. O nome Preta Chique surgiu ainda naquele ano, embora o lançamento oficial da marca só tenha acontecido em 2018, após um período dedicado inteiramente à produção artesanal, sem qualquer formação técnica prévia. “Dentro da minha percepção, eu fui produzindo. Buscava referências de acessórios africanos na internet e ia montando as peças em casa, sozinha”, relembra.
Da bijuteria à biojoia: um caminho de estudo e ancestralidade
Com o tempo, o trabalho artesanal de Daisy ganhou contornos mais técnicos e conceituais. A partir de 2022, ela passou a se aprofundar no conceito de biojoia, categoria de acessórios produzidos com materiais naturais como sementes, cascas de coco e madeira, técnica que já praticava de forma intuitiva, mas sem essa nomenclatura específica. “Eu nunca trabalhei com plástico. Trabalhava com metal, com pedra, com madeira. No começo, eu comprava peças de madeira e encapava com tecido africano, sempre buscando o mais natural possível”, explica.

Esse mesmo período coincidiu com o fortalecimento de sua caminhada espiritual dentro da Jurema Sagrada, religião de matriz afro-indígena que reverencia elementos da natureza, como ervas, sementes e árvores, e que hoje orienta diretamente o processo criativo da marca. Muitas peças passaram a ser produzidas sob encomenda para atendimentos religiosos, seguindo orientações espirituais recebidas durante a confecção. “A pessoa me encomenda uma guia para reverenciar determinada entidade, mas não escolhe a cor nem o modelo. Na hora de fazer, eu recebo essa instrução espiritual sobre cores, pingentes”, descreve. A partir dessa integração entre fé e artesanato, Daisy passou a estruturar coleções temáticas, como a “Jurema Sagrada”, organizadas por linhas espirituais, cada uma associada a sementes, cores e simbologias específicas.
A decisão de deixar a estabilidade após 12 anos
Mesmo com a marca em crescimento, Daisy manteve por anos uma rotina dupla, em que de segunda a sexta, cumpria expediente na EBC; nos fins de semana e à noite, dedicava-se à produção artesanal e à participação em feiras. A decisão de se desligar do serviço público, após 12 anos de carreira, veio somente em agosto deste ano, após um planejamento financeiro que incluiu poupança e investimentos prévios para viabilizar essa transição. “Se eu não tivesse feito isso, só com o valor da Preta Chique talvez não conseguisse manter a casa toda”, pondera. Poucos dias depois de pedir a exoneração, ela recebeu a notícia de que era finalista do Prêmio Sebrae Mulher de Negócios. “Foi uma confirmação de que valia a pena investir naquilo que eu acredito”, relembra.

Atualmente, a Preta Chique funciona a partir de um pequeno ateliê montado dentro de casa, sem loja física, com vendas realizadas para todo o Brasil por meio de redes sociais e encomendas. A rotina inclui ainda a participação frequente em feiras de artesanato, hoje viabilizada por convites espontâneos, sem que Daisy precise buscar ativamente esses espaços.
Reconhecimento como reparação histórica
Para Daisy, vencer o prêmio teve um significado que ultrapassa a dimensão comercial do negócio. Primeira vez em que se inscreveu em uma premiação, ela relaciona a conquista à trajetória de mulheres de sua própria família, como a bisavó rezadeira, a avó que vendia galinhas pelas ruas de Minas Gerais antes de se tornar revendedora, e as ganhadeiras de Salvador, mulheres negras que comercializavam produtos em tabuleiros para conseguir comprar sua própria alforria. “Todas essas histórias de luta não tiveram reconhecimento, não foram premiadas por isso. Receber esse prêmio é, para mim, como uma reparação histórica”, avalia.
O contato de Daisy com o Sebrae já existia antes da premiação, por meio de cursos e capacitações pontuais sobre empreendedorismo. Foi o interesse pelas mentorias oferecidas como parte do prêmio que a motivou a se inscrever. “Eu já sabia da grandiosidade do apoio do Sebrae, mas não conseguia me dedicar tanto. Agora, com mais tempo livre para a Preta Chique, pretendo me capacitar ainda mais”, afirma.
Planos de expansão para a Bahia
Entre os projetos futuros de Daisy está a expansão geográfica da marca para Salvador, cidade onde estão suas raízes familiares mais profundas. A empreendedora já foi convidada a participar da Fenearte da Bahia, feira nacional de artesanato, e planeja estruturar, na capital baiana, um espaço físico dedicado a uma associação de mulheres negras, artesãs, periféricas e quilombolas. A ideia inclui uma loja colaborativa no térreo do imóvel e salas destinadas a oficinas ministradas por ela e pelas demais integrantes do grupo. “Pretendo, sim, um dia sair do DF. Essa expansão pode não acontecer ainda este ano, mas é um desejo real”, projeta.

Com uma trajetória que une resistência, fé e ancestralidade, Daisy resume o momento atual como um recomeço construído com propósito. “A Preta Chique impacta a vida das pessoas de várias formas, tanto na afirmação da identidade quanto no sentido emocional e espiritual. Hoje, é o principal trabalho que traz meu sustento, e isso é um presente enorme”, conclui.
Serviço – Preta Chique
Redes Sociais: @pretachiqueoficial
WhatsApp: 71 9 9366-1019
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Créditos das Notícias Sebrae DF
